Fator R: quando ele muda o seu Anexo (e a sua conta) no Simples Nacional

Duas empresas de serviço, mesmo faturamento, mesma atividade. Uma paga a partir de 6% no Simples Nacional; a outra, a partir de 15,5%. O que separa as duas é uma única conta: o Fator R.
Para uma parte das atividades de serviço, o Simples não fixa o anexo de antemão. Ele depende da proporção entre a folha de pagamento e a receita. Quando essa proporção alcança 28%, a empresa é tributada pelo Anexo III, de alíquotas menores. Abaixo disso, cai no Anexo V, mais caro.
Este post mostra como o Fator R é calculado, o que entra na folha, e quando vale a pena mexer nela. A mecânica é simples de descrever e exige atenção no detalhe, porque um ponto percentual perto do limiar muda a tabela inteira.
O que é o Fator R
O Fator R é a razão entre a folha de salários dos últimos 12 meses e a receita bruta dos últimos 12 meses. Quando o resultado é igual ou maior que 28%, as atividades de serviço sujeitas a essa regra são tributadas pelo Anexo III; quando fica abaixo de 28%, pelo Anexo V. A base legal está na LC 123/2006, no artigo 18, parágrafos 5º-J e 5º-M, e o detalhamento operacional na Resolução CGSN nº 140/2018, artigo 25-A.
A diferença entre as duas tabelas é direta no bolso. O Anexo III começa com alíquota de 6% na primeira faixa de receita; o Anexo V começa em 15,5%. Para a mesma receita, a atividade que se enquadra no Anexo III recolhe menos. O Fator R é o que decide o enquadramento para as atividades sujeitas a ele.
O que entra na folha do Fator R
A folha que compõe o numerador do Fator R é mais ampla que o salário base. Ela soma, nos 12 meses anteriores ao período de apuração, os salários, o 13º, o pró-labore dos sócios, o INSS patronal e o FGTS. O pró-labore entra na conta, e é por isso que ele costuma ser a variável de ajuste mais à mão para o sócio.
A Resolução CGSN nº 140/2018 ainda trata os casos de borda. Se há folha e a receita do período é zero, o Fator R é fixado em 0,28. Se há receita e a folha é zero, fica em 0,01. Fora desses extremos, aplica-se a divisão direta entre os dois montantes dos 12 meses.
Como calcular, passo a passo
O cálculo tem três passos. Primeiro, some a folha dos 12 meses anteriores, com salários, 13º, pró-labore, INSS patronal e FGTS. Segundo, levante a receita bruta dos mesmos 12 meses. Terceiro, divida a folha pela receita: o resultado é o Fator R do período.
O exemplo abaixo é ilustrativo e serve só para mostrar a mecânica. Considere uma empresa de serviço com R$ 600 mil de receita bruta em 12 meses:
| Cenário | Folha de 12 meses | Fator R | Anexo |
|---|---|---|---|
| Folha maior | R$ 180 mil | 30% | Anexo III (a partir de 6%) |
| Folha menor | R$ 150 mil | 25% | Anexo V (a partir de 15,5%) |
A diferença entre os dois cenários é de R$ 30 mil de folha no ano, e ela move o enquadramento de uma tabela para a outra. Perto do limiar de 28%, pequenas variações decidem o anexo, então o cálculo merece acompanhamento mês a mês, não uma conferência só na virada do ano.
Quem é afetado pelo Fator R
O Fator R alcança um grupo específico: prestadores de serviço cujas atividades a lei colocou na dependência dessa razão. Algumas atividades de serviço são sempre tributadas pelo Anexo III, outras sempre pelo Anexo V, e um terceiro conjunto oscila entre os dois conforme o Fator R do período. Saber em qual grupo a empresa está é o ponto de partida, porque só o terceiro grupo tem o que planejar aqui. O enquadramento se lê no CNAE da empresa, o código que classifica a atividade e define a qual dos três grupos ela pertence.
Para esse terceiro grupo, o Fator R deixa de ser detalhe contábil e vira variável de decisão. Profissões intelectuais e empresas de serviço com folha relevante frente à receita tendem a se beneficiar do Anexo III, desde que a conta da folha feche acima dos 28%.
Planejar a folha para cruzar o limiar
Ajustar a folha para alcançar 28% é uma decisão de planejamento legítima, e ela passa por simular os dois lados. Aumentar o pró-labore eleva o Fator R e pode levar a atividade ao Anexo III, mas também aumenta o INSS sobre o pró-labore. O ganho de imposto no Simples precisa superar esse custo adicional para a mudança compensar.
Não há regra de bolso que valha para todos. Em empresas com receita alta e folha baixa, cruzar o limiar pode exigir um aumento de pró-labore que custa mais do que economiza. Em outras, perto do limiar, um ajuste pequeno já vira a tabela e compensa com folga. A resposta é do caso concreto, medida com os números reais, não de uma afirmação genérica de que mais folha sempre vale a pena.
O Fator R dentro do Simples e da Reforma
O Fator R é uma peça do Simples Nacional, e a escolha pelo próprio Simples vem antes dele. Decidir entre Simples, Presumido e Real é a primeira conta; o Fator R entra depois, para quem ficou no Simples e exerce atividade sujeita à regra. Tratar o Fator R isolado do regime leva a otimizar uma etapa e errar a anterior.
A Reforma Tributária muda o cenário de 2027 em diante, quando CBS e IBS passam a incidir e a lógica de crédito entra na conta de todos os regimes. O calendário dessa transição está no cronograma da Reforma de 2026 a 2033. Até lá, o Fator R segue valendo como está, e a folha continua sendo a alavanca que move o anexo.
O Nítido está sendo construído para fazer essas contas a partir das suas próprias NF-e e da sua folha, em cenários, em vez de uma regra fixa que não cabe no seu caso.
Perguntas frequentes
O que é o Fator R no Simples Nacional?
É a razão entre a folha de salários dos últimos 12 meses e a receita bruta dos últimos 12 meses. Quando chega a 28% ou mais, certas atividades de serviço são tributadas pelo Anexo III, de alíquotas menores, em vez do Anexo V. A regra está na LC 123/2006.
Como se calcula o Fator R?
Divida a folha dos 12 meses anteriores pela receita bruta dos mesmos 12 meses. A folha inclui salários, 13º, pró-labore, INSS patronal e FGTS. Se o resultado é igual ou maior que 0,28, a atividade vai para o Anexo III; se é menor, fica no Anexo V.
Qual a diferença entre o Anexo III e o Anexo V?
São tabelas diferentes do Simples Nacional. O Anexo III tem alíquotas iniciais menores, a partir de 6%. O Anexo V começa mais alto, a partir de 15,5%. Para as atividades sujeitas ao Fator R, é ele quem decide em qual tabela a empresa cai.
O pró-labore entra no Fator R?
Sim. O pró-labore dos sócios entra na folha que compõe o numerador do Fator R, junto com salários, 13º, INSS patronal e FGTS dos 12 meses anteriores. Por isso ajustar o pró-labore é uma das formas de mover o Fator R em relação ao limiar de 28%.
Quando compensa aumentar a folha para cair no Anexo III?
Quando a economia de imposto ao migrar para o Anexo III supera o custo de aumentar a folha, incluindo encargos. Nem sempre compensa: pró-labore maior gera mais INSS. A decisão depende de simular os dois lados com os números da empresa, não de uma regra fixa.
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